Ingrid saiu só. Sentou-se na mesa do canto, aquela no corredor. Pediu uma garrafa inteira de vinho. O garçom fez a incômoda pergunta, se vem mais alguém. Não, pode retirar o prato. Ah, o celular. Desligou, colocou de volta na bolsa e pronto, estava realmente só.
A noite era clara, dava para ver a lua árabe lá no alto. Só de contemplá-la deu um nó na garganta. Só. Passou.
Podia ter chamado a fulana, a ciclana, mas Ingrid estava cansada até para convidar alguém. Falar o que? Elas não escutam. E se prestarem mesmo atenção vão começar a palpitar, e a última coisa que cabe agora é faça assim, faça assado. Chega. É preciso dar conta da própria vida. Em silêncio.
Por que no fundo não é nada grave, só solidão. E assumi-la já é um grande passo. Encarar o restaurante que se quer, na mesa que se quer, com o vinho desejado, o prato inteiro só para um, sem concessões, já é bastante. Passar ali uma hora, sem falar nada, só obrigada, um sorrisinho ou outro na troca de talheres, tá muito bom. Respirar fundo, sem suspirar. Inspirar.
Ingrid começou a sentir saudades, não de casa, mas de si. Há muito tempo ela não sabia o que era de fato estar só. Havia se acostumado com a sensação de solidão mesmo com o movimento da casa, o marido, os filhos, os animais. O velho conhecido som do lamento de prover e prover, ai, ai.
A sobremesa chegou, imensa, deliciosa. Não ficou uma gota de calda. Café, a conta e chama um táxi.
Nem saiu de carro que era para evitar uma busca policial. Mesmo assim, viu as luzes piscantes do carro da polícia na esquina de sua casa.
Pagou a corrida, desceu do carro com um sorriso aberto, beijou o marido na boca enquanto ele vociferava cobrança de explicações, voltou a cabeça para trás, cumprimentou os homens da polícia, afagou o cachorro e entrou. Abraçou com força cada criança, deu-lhes boa noite e avisou que a porta precisaria ficar fechada pois papai e ela teriam que conversar. Mil beijos, até amanhã meus amores.