sábado, 3 de setembro de 2011

Canalhas e moças sérias

Os canalhas ficam de canto na pista de dança, fingindo desinteresse. Inclusive porque costumam bater ponto no local, então já não há muita curiosidade. Exceto pelas moças que dão o ar da graça a primeira vez, que chegam em turma, para a festa de aniversário ou encontro com o amigo que trabalha no exterior e está doido para conhecer a tal casa noturna descolada. As moças sérias são interessadas em tudo, no piso, na quantidade de caixas acústicas, no caminho do banheiro, rapidamente mapeado. Lá pelas tantas da madrugada, depois de colocar a conversa em dia e dar muita risada dançando esquisito só de bobeira é que as moças sérias reparam que tem alguém olhando. Desde o começo da noite, conta a amiga.

Os canalhas percebem a deixa e puxam papo com a amiga quando ela vai ao bar buscar cerveja. Então, a acompanham no caminho de volta para a turma e puxam a moça séria para dançar. Eles adoram ver o brilho nos olhos das moças sérias. Preferem o sorriso tímido do que a gargalhada das gostosudas. A missão dos canalhas é apalpar as curvas das moças sérias que costumam se esconder por debaixo de roupas geométricas. Os sapatos confortáveis e quadrados não são exatamente os melhores para dançar, o que causa risinhos quando as pernas se trançam. Os canalhas aproveitam para ajeitar o corpo com mais volúpia.

As moças sérias zelam muito pelos amigos, não acham legal fazer papelão no meio da roda. Então, sugerem aos canalhas que cheguem até o bar. E eles sugerem que é melhor ir para um lugar mais sossegado. Deixa para sair da festa. Depois do ok da amiga e troca de chaves de carro e bolsas, as moças sérias tomam coragem de encarar um canalha.

Os amassos começam a ficar mais selvagens longe do público, porque os canalhas acreditam que fazem o favor de mostrar para as moças sérias que elas têm um lado gostosuda. Querem deixar essa marca. Mas o personagem da gostosa não se encaixa na melancolia, e a troca de pernas, braços e línguas começa a incomodar. Frio, vazio. O corpo das moças sérias não encontra lugar na apresentação performática dos canalhas, e voltam a ser cobertos com as roupas geométricas. Não vale a pena se expor.

Na despedida alívio duplo, que para os canalhas é uma a menos para ligar no dia seguinte, e para as moças sérias uma história de canalha para dividir com as amigas.

sábado, 21 de maio de 2011

O empreendedor

Hoje o movimento não está dos melhores. Sexta-feira à tarde era para o mercado estar mais cheio. E eu aqui, pensando nas ondas. Ah, lá, tem outra família chegando com o carrinho cheio e nenê dormindo no bercinho. Já sei que eles vão pedir para experimentar e sair sem comprar. Mas faz parte, é questão de cultura do brasileiro, que logo vai se acostumar com a vida saudável. Se bem que quem mais tem comprado aqui o frozen são crianças e casais mais velhos, que adoram colocar toppings. Já falei isso pro franqueador, mas o cara insiste que o produto é para gente de academia. Aqui no hipermercado garanto que não é. Sim, claro, temos natural e de morango, qual o senhor deseja experimentar? Não, não, a jujuba é só para acompanhamento mesmo. Pois é. Um mini? Saindo, só um minuto. Quantas colheres - já sei que vão pedir umas duas pelo menos, para dividir com a família. Mas tudo bem, depois cada um outro dia pode querer tomar um inteiro.

Ai, ai. Quatro da tarde, e eu podia estar no mar. O Bocão tá indo para a praia já, que vontade... Mas eu sempre quis empreender, e isso dá trabalho. Trabalho nada, um saco ficar aqui sentado nesse cubículo. Ok, é meu cubículo, meu negócio. Kotler na prática.

Ih, caramba. Como é mesmo o nome dela, ai, caraca. Ela tá vindo, me reconheceu. Ferrou. Tudo bem que eu falei que era bacana ter meu próprio negócio, mas nunca pensei que a gata viesse até aqui no bairro do Limão conferir. Putz. Vai querer que eu convide para jantar, conhecer minha mãe, conheço essa história. E aí, linda, fazendo mercado hoje? Você trabalha por essas bandas? Só, esse é o meu ganha-pão, pequeno, modesto, mas de futuro. Dá para pagar as baladas, ehehe. Tó, para você é de graça. Morango ou amora? Ah, vou contar pro seu pai que você namora, hein?! Véio, que que eu fui falar. Oh, merda. Hãn? Ah, é, tá calmo hoje. Mas pega mesmo é à noite, tenho de ficar aqui até fechar. Saio cansado para caramba, quase de madrugada chego em casa. É, que pena, vai ter de ficar para a próxima. Manda um beijo para as meninas. Falou, falou. Que mancada, véio... Se bem que ela é gostosinha. É, de repente, se não rolar a balada eu dou um alô. Cadê o celular. Aqui. Fala, mano! Como é que tá? Um metro e meio quebrando? Opa, tô nessa. Amanhã caio aí. Tá, abraço. Tsc. Sábado é folga do Juvêncio. Caramba, não vai dar para surfar.

Vejamos qual o fluxo de caixa até o momento. Na planilha ainda está no painel amarelo, falta vender uns 15 frozens com  3 troppings ou 25 dos mais simples para bater a meta diária. E vai levar mais 80 dias para o break-even. Daqui um ano, Indonésia, uhu!

domingo, 8 de maio de 2011

Sr. João

Seis da tarde, sr. João sobe no ônibus com um sorriso. Cumprimenta Seu Edson, o motorista, e Clebson, o cobrador, quebrando o silêncio dos irritados. A senhora da primeira poltrona afasta a grande sacola para mais um passageiro conseguir alcançar a catraca. Mas sr. João não quer passar agora, obrigada. Conta para quem quiser e não quiser ouvir que havia acabado o primeiro expediente e estava rumo ao segundo. Sua vida de porteiro graças a Deus muito digna e de dedicação garantiu aos dois filhos estudo. A menina está até na faculdade. O rapaz é muito trabalhador, sabe, senhora, bom menino, frequenta a igreja tem cabeça boa.

A senhora acena com a cabeça, mas continua segurando o sono, dá uma volta e fecha os olhos novamente no meio do relato sobre o carro, que graças a Deus sr. João conseguiu comprar. Mas ele diz preferir andar de coletivo, porque a patroa pode precisar sair para algum canto da cidade. Ele conhece muito bem essa Avenida Rebouças e mesmo nesse horário é melhor andar de ônibus que de carro, olha lá, ó, estamos muito na frente já daquela van que fechou o ônibus ali na Consolação. São Paulo não está de brincadeira, moça, muito trânsito e confusão. Mas foi aqui que com suor fizemos a vida, oportunidade assim não tem lá na Paraíba. Sr. João ajuda a família, manda todo mês parte do salário para a mãe e seis irmãos. Não recomenda para ninguém vir para São Paulo, deixa que ele cuida disso.

O Kassab deveria mandar os ônibus andarem numa faixa só, comentou o menino sentado no banco detrás. A blusa do colégio particular de jesuítas mostrava que o garoto, por volta de 12 anos, prestava atenção na aula de educação cívica.

Ah, mas está de doer essa lenga-lenga, o ônibus não avança. Sr. João agora quer passar, para tentar descer do ônibus e ir caminhando mesmo, que chega mais rápido. Não pode atrasar, não, meu senhor, que a vida tá dura e tem muita prestação de carnê para pagar. Dá licença. Dá licença. Clebson, tá precisando de troco?

Após uns dez minutos de empurra-empurra, Sr. João, franzino mas ágil, conseguiu alcançar a porta. Tocou a campainha e gritou ao Edson que iria descer naquele ponto. O grandão do fundo do ônibus já estava irritado com tanta falação. Desceu atrás do Sr. João e o foi seguindo. Deu nos nervos aquela história de carro e carnê para pagar. Qual é, vem da Paraíba e fica aí se achando? Isso não vai ficar assim.

Sr. João acena para o colega com quem vai trocar de turno, já está escuro. Entra na guarita sem perceber que alguém vinha atrás. Levou uma cotovelada na nuca, caiu seco no chão. O porteiro chama a polícia pelo botão de emergência da guarita. Tranca a porta correndo, mas o grandão consegue quebrar o trinco da janela basculante. E pergunta: De onde tu é? Ceará, Paraíba, onde? O porteiro não consegue falar de tão nervoso. Gesticula alguma coisa e pega o interfone. Não deu tempo de falar, também foi derrubado. A síndica ouviu os gemidos, avisou o marido e ficou na janela. Foi o tempo de o grandão se vingar da Paraíba e sair pelo portão, como se nada tivesse acontecido. A polícia chegou, ele começou a correr, saltando por sobre os carros. Bateu de cara no poste com o nome da rua Sergipe, onde ficou algemado até chegar o reforço.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Queijo minas

Mais uma viagem com os amigos da mamãe. A menina, do tipo que fica na dela, incluía o sobe e desce de montanhas nos filmes que ela dirigia para si. Cada paisagem! Os personagens eram poucos, mas havia bastante diálogo. Tudo gravado a cada passo apoiado em toco de madeira. A direção fez pausa para almoço. Corta! O boteco do vilarejo não era exatamente digno de um brunch de set de filmagem, mas parecia honesto. A menina sentou-se no balcão ao lado da mãe. As duas amigas grandes dela foram buscar alguma coisa de beber no outro boteco. Uma terceira foi dar uma olhada na igrejinha. A menina pediu coxinha, era a última da vitrine, não ia ser suficiente para aplacar a fome. Ah, e também esse pedaço de queijo branco. Pô, esse queijo é massa, comentou o cabeludo que estava na banqueta ao lado. Essa gíria ela não conhecia, massa. Boa, vamos incluir no filminho. Deixa para rir depois, na fase de edição. Agora, o roteiro pede um encaixe. Talvez ele seja o mago da floresta encantada que guarda um segredo no cajado. Vai ficar legal o suspense medieval. Ou um músico muito famoso dos anos 70 que está perdido por ali, e serve bem para um roteiro de arte. As adultas também estão no mundinho delas, só que é bem mais barulhento. Como falam! Onde é que acham tanta graça? Sorte que o passeio rende bastante tempo para a filmagem.

Amanhã será numa gruta. O cajado encantado pode estar escondido debaixo de uma estalagtite - ou estalagmite, sei lá. Agora, filmagem noturna, com luz da lua. Cabe uma história de amor. O cantor que estava na pizzaria ontem à noite até que deve ter sido um adolescente bonitinho. Eles vão se encontrar na gruta, conversar e tal, e à noite quando estiverem passando pela ponte do riozinho vão encontrar o cabeludo tocando uma música em inglês. Vai ter fogueira, a maior galera, pessoal mais velho, de faculdade. Como será que é que beijar na boca? Ah, tá, mãe, já vou tomar a sopa. Nada não, com sono só. Pausa nas filmagens.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Bonitinha do panfleto

E ali está ela, mais uma vez. Toda maquiada, perfumada, com uma calça jeans bem justa e cadarço colorido nos tênis, distribuindo panfletos que ninguém abre o vidro do carro para apanhar. Desviando dos motoboys na avenida movimentada da chique zona sul de São Paulo, a moça procura o Gol branco, aquele do rapaz trabalhador simpático, que vivia fazendo elogios aos seus olhos cor de mel.

Passaram-se duas horas, três, já vai ficar de tarde e o moço ainda não veio. A bonitinha do panfleto, como ele a chama, murchou. Andava arrastada entre os carros, esquecia até de entregar papel. Mal percebeu o psiu que veio lá de baixo. Quando já estava voltando para o canteiro, o moço do Gol branco passou e deu sinal, chamando-a com o braço, para dobrar a esquina junto com ele.

Ela olhou em volta, para checar se o olheiro da construtora estava por perto, aparentemente não, então ela foi. Buzina para todo lado, que o Gol ficou de rabo na alça da saída do pontilhão, atrapalhando os que vinham atrás.

--Entra, disse o moço. Rápido!

Ela olhou para um lado, para o outro e entrou.

--Oi. Olha moço, eu tô trabalhando, é só uma voltinha tá?

-- Que nada, bonitinha do panfleto, vim te tirar dessa vida no meu cavalo branco. Ehehe, tô brincando, vamos ali tomar um café no posto, é rápido.

Ela gostou da ideia. Mais ainda do cavalo branco. Será que era ele o tal que a tia havia jurado de pés juntos que seria o marido dela. "O moço tá chegando", a velha disse. A moça tremia. Frio na barriga. Comida nenhuma ia descer. O cavaleiro pediu dois cafés, o dela foi num gole de fazer careta, tão quente que estava.

--Nossa, a menina é valente, disse ele. Conta, garota, quando é que você vai comigo no forró?

--Não posso não, eu nem moro por aqui. Fico do outro lado do rio, lá no final.

--Fique tranquila, a gente combina e eu te pego no meio do caminho. Senta aqui do meu lado.

--Eu tô preocupada, moço, de perder o bico, é a renda que ajuda em casa. Tenho de voltar, vou indo -- e virou, quase batendo na porta de vidro da pequena loja de conveniência. Num passo apressado cruzou o posto e virou-se para trás, para mandar um tchau ao moço.

--Ei, menina -- gritou ele, da porta. Você não me deu seu nome!

--É Cléia - gritou ela, já na esquina.

Os frentistas do posto começaram a assobiar. O cavaleiro branco não gostou. Foi tirar satisfação. Deixa disso, e entrou no carro. No caminho foi pensando se não dava para atrasar a entrega mais um pouco, para dar outra volta. Atrasado e meio está. Virou o quarteirão. Passou por Cléia, mandou um beijo assoprado com a mão direita. Ela viu o cavalo galopando em disparada. Lá ao longe tudo ficou branco, de repente. Cléia, apaixonada, estava plantada no meio do trânsito. Por um segundo pensou que o caminhão de lixo ia passar por cima de seus pés. O frentista do posto voou por cima da moça, jogando-a no canteiro.

--Sua louca, tá fazendo o que no meio da rua?

-- Desculpa, eu nem sei, eu tava, e aí, não vi. Cadê?

--Tá aqui sua chave, que caiu na hora que você saiu correndo do posto.

--Nossa, obrigada.

--Vê se não esqueceu mais nada, que amanhã eu guardo para você no posto.

--Obrigada, mesmo. Eu tô tão avoada...

--É, tô sabendo Cléia. Você nem me vê.

--O quê?

--Desde o mês passado que eu aceno para você todo dia, de bom dia. Você só sorri quando o Gol branco passa. Eu sei.

--Juro que não vi. Desculpe.

--Tem nada não, eu tô ligado. Nem carro tenho, sou um pangaré mesmo. Falou então, te cuida.

--Ei, toma aqui um panfleto. Atrás coloquei meu celular. Tô te devendo uma, você me salvou.

--Tá devendo nada, devia era prestar mais atenção. Ficar aí sonhando com carro e apartamento de bacana não dá certo, menina.

Cléia começou a chorar. Encostou no poste e foi deixando as costas deslizarem para baixo.

No posto, os colegas do frentista queriam saber qual era o motivo do choro. Nada não, coisa de abobada deslumbrada. Qual é, cara, magoou a menina. É que tem sonho que não se joga dentro do carro dos outros. E quem se joga para o outro nem sonho tem.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Granfino

Olha lá.
-- Quem?
Aquele bacana, ali, tá pensando o que, que vai encostar a Mercedes aqui para tomar uma cana? Deve ser policial à paisana.
-- Ih, mano, encostou. Do meu lado é que não senta, o banquinho tá ocupado.
E tu acha que granfino senta em balcão, oh mané?
-- Disfarça aí.

A Mercedes prata encostou na garagem ao lado do boteco, na tranversal. Desceu do carro um homem de meia-idade, bermuda jeans e camiseta de time de futebol estrangeiro. Cabelo grisalho, liso, com franja de lado, do tipo que cobre o topo da orelha. O bacana fez um assovio em sinal de ei, vem cá, para o vendedor ambulante de palhetas de carro.

--Ah, é só para humilhar mesmo, nego para logo aqui para trocar pára-brisa, qualé.
Fica na tua, bebe aí a cana e a gente volta logo pro serviço, que o patrão já deve ter notado falta.

O granfino dono da Mercedes testou vários modelos de palheta, pagou por um par o preço de dois que o ambulante venderia para qualquer Gol que passasse, e entrou no boteco, pulando a mureta da vaga de garagem.

-- Boa tarde, chefia, uma cerveja, a que tiver mais gelada, por favor.
-- Sim, patrão, tá aqui.
-- Ahhhhh.

Silêncio no boteco. Ninguém mais falava. Só se ouvia o barulhos dos motores dos carros, ônibus e caminhões na movimentada avenida de comércio de madeiras.

--Bom, obrigada, mestre. Tá aqui, pode ficar com o troco. Falou.

Abriu a porta do carro com cuidado, sentou, logo levantou para tirar uma poeirinha da borracha que bate a porta. Ligou o chuveirinho de pára-brisa para testar a palheta nova. Arranhou o vidro. O bacana saiu furioso do carro, deixando tudo aberto, e partiu para cima do ambulante.

--Ei, ei, você. Vem cá, cara, olha aqui. É, volta aqui. Arranhou meu vidro, pô. Devolve meu dinheiro.
--Não, chefia, o senhor testou antes, o material é de qualidade, aí, chinês do Porto de Santos.
--Na-não, coloca a minha palheta de volta e me dá o dinheiro.
--Eu já vendi a do senhor.
--Eu te arrebento, safado, tá aqui uma na orelha, e essa na outra, malandro.

Os dois que estavam no bar saíram em defesa do ambulante, segurando o granfino pelas costas, enquanto o sujeito perdia a compostura. O movimento chamou a atenção da viatura que estava parada no posto da esquina. Os policiais chegaram, encostaram o ambulante e os dois serventes na parede, os algemaram, sem nada perguntar, exceto sobre sobre a quantidade de cachaça ingerida.

--Pode seguir, senhor, nem precisa dar queixa, tudo sob controle.

O bacana pôs a mão no quadril, balançou a cabeça com ar de desaprovação e entrou no carro sem falar nada. Ligou o motor, deu ré e ao tomar a avenida ligou o pára-brisa e a música alta.

terça-feira, 22 de março de 2011

Mesa 5 - no cantinho de um bistrô modernoso

Até chegar ali não foi fácil. O sábado se arrastava sem conversa, e a fome já tinha passado do estômago para o coração. Fome de vida. Cansada de silêncios, ela resolveu ajudar na leitura do cardápio, porque não tinha mesmo qualquer outro assunto.

--Olha, tem carneiro com hortelã, que você gosta. Só que o molho é com pimentão, aí tem que mandar tirar. E você viu ali em baixo que a sobremesa está inclusa? Aposto que você vai ficar com os profiteroles.

--Não enche o saco, deixa que eu sei ler.

A resposta doeu. Bateu no alto da garganta onde tudo entalava. Não deu para controlar o choro. O garçom atônito oferecia mais água. Ela olhava para o lado oposto, ali bem  na dobradiça do bufë de servíço. Aquele buraquinho era o foco mais distante para tentar desviar do tema. Que tema mesmo? Há tantos anos, e nenhum almoço agradável a dois. Com a turma, ok, era ótimo, tinha papo de sobra. Essa angústia silenciosa que teima em suspender a fome. Não tem nada para anotar, moço, desista de atendê-los. Ela tá na cara que vai levantar e sair bufando. O maitre até desconfia que a água vai ser usada para lavar a cara do grandão enfezado. Que nada. Ela fez o pedido. O dela e o dele. Sorriu, abriu o guardanapo no colo, tomou a água e olhou para a rua.

--Tá lindo o dia.