Olha lá.
-- Quem?
Aquele bacana, ali, tá pensando o que, que vai encostar a Mercedes aqui para tomar uma cana? Deve ser policial à paisana.
-- Ih, mano, encostou. Do meu lado é que não senta, o banquinho tá ocupado.
E tu acha que granfino senta em balcão, oh mané?
-- Disfarça aí.
A Mercedes prata encostou na garagem ao lado do boteco, na tranversal. Desceu do carro um homem de meia-idade, bermuda jeans e camiseta de time de futebol estrangeiro. Cabelo grisalho, liso, com franja de lado, do tipo que cobre o topo da orelha. O bacana fez um assovio em sinal de ei, vem cá, para o vendedor ambulante de palhetas de carro.
--Ah, é só para humilhar mesmo, nego para logo aqui para trocar pára-brisa, qualé.
Fica na tua, bebe aí a cana e a gente volta logo pro serviço, que o patrão já deve ter notado falta.
O granfino dono da Mercedes testou vários modelos de palheta, pagou por um par o preço de dois que o ambulante venderia para qualquer Gol que passasse, e entrou no boteco, pulando a mureta da vaga de garagem.
-- Boa tarde, chefia, uma cerveja, a que tiver mais gelada, por favor.
-- Sim, patrão, tá aqui.
-- Ahhhhh.
Silêncio no boteco. Ninguém mais falava. Só se ouvia o barulhos dos motores dos carros, ônibus e caminhões na movimentada avenida de comércio de madeiras.
--Bom, obrigada, mestre. Tá aqui, pode ficar com o troco. Falou.
Abriu a porta do carro com cuidado, sentou, logo levantou para tirar uma poeirinha da borracha que bate a porta. Ligou o chuveirinho de pára-brisa para testar a palheta nova. Arranhou o vidro. O bacana saiu furioso do carro, deixando tudo aberto, e partiu para cima do ambulante.
--Ei, ei, você. Vem cá, cara, olha aqui. É, volta aqui. Arranhou meu vidro, pô. Devolve meu dinheiro.
--Não, chefia, o senhor testou antes, o material é de qualidade, aí, chinês do Porto de Santos.
--Na-não, coloca a minha palheta de volta e me dá o dinheiro.
--Eu já vendi a do senhor.
--Eu te arrebento, safado, tá aqui uma na orelha, e essa na outra, malandro.
Os dois que estavam no bar saíram em defesa do ambulante, segurando o granfino pelas costas, enquanto o sujeito perdia a compostura. O movimento chamou a atenção da viatura que estava parada no posto da esquina. Os policiais chegaram, encostaram o ambulante e os dois serventes na parede, os algemaram, sem nada perguntar, exceto sobre sobre a quantidade de cachaça ingerida.
--Pode seguir, senhor, nem precisa dar queixa, tudo sob controle.
O bacana pôs a mão no quadril, balançou a cabeça com ar de desaprovação e entrou no carro sem falar nada. Ligou o motor, deu ré e ao tomar a avenida ligou o pára-brisa e a música alta.
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