quarta-feira, 30 de março de 2011

Bonitinha do panfleto

E ali está ela, mais uma vez. Toda maquiada, perfumada, com uma calça jeans bem justa e cadarço colorido nos tênis, distribuindo panfletos que ninguém abre o vidro do carro para apanhar. Desviando dos motoboys na avenida movimentada da chique zona sul de São Paulo, a moça procura o Gol branco, aquele do rapaz trabalhador simpático, que vivia fazendo elogios aos seus olhos cor de mel.

Passaram-se duas horas, três, já vai ficar de tarde e o moço ainda não veio. A bonitinha do panfleto, como ele a chama, murchou. Andava arrastada entre os carros, esquecia até de entregar papel. Mal percebeu o psiu que veio lá de baixo. Quando já estava voltando para o canteiro, o moço do Gol branco passou e deu sinal, chamando-a com o braço, para dobrar a esquina junto com ele.

Ela olhou em volta, para checar se o olheiro da construtora estava por perto, aparentemente não, então ela foi. Buzina para todo lado, que o Gol ficou de rabo na alça da saída do pontilhão, atrapalhando os que vinham atrás.

--Entra, disse o moço. Rápido!

Ela olhou para um lado, para o outro e entrou.

--Oi. Olha moço, eu tô trabalhando, é só uma voltinha tá?

-- Que nada, bonitinha do panfleto, vim te tirar dessa vida no meu cavalo branco. Ehehe, tô brincando, vamos ali tomar um café no posto, é rápido.

Ela gostou da ideia. Mais ainda do cavalo branco. Será que era ele o tal que a tia havia jurado de pés juntos que seria o marido dela. "O moço tá chegando", a velha disse. A moça tremia. Frio na barriga. Comida nenhuma ia descer. O cavaleiro pediu dois cafés, o dela foi num gole de fazer careta, tão quente que estava.

--Nossa, a menina é valente, disse ele. Conta, garota, quando é que você vai comigo no forró?

--Não posso não, eu nem moro por aqui. Fico do outro lado do rio, lá no final.

--Fique tranquila, a gente combina e eu te pego no meio do caminho. Senta aqui do meu lado.

--Eu tô preocupada, moço, de perder o bico, é a renda que ajuda em casa. Tenho de voltar, vou indo -- e virou, quase batendo na porta de vidro da pequena loja de conveniência. Num passo apressado cruzou o posto e virou-se para trás, para mandar um tchau ao moço.

--Ei, menina -- gritou ele, da porta. Você não me deu seu nome!

--É Cléia - gritou ela, já na esquina.

Os frentistas do posto começaram a assobiar. O cavaleiro branco não gostou. Foi tirar satisfação. Deixa disso, e entrou no carro. No caminho foi pensando se não dava para atrasar a entrega mais um pouco, para dar outra volta. Atrasado e meio está. Virou o quarteirão. Passou por Cléia, mandou um beijo assoprado com a mão direita. Ela viu o cavalo galopando em disparada. Lá ao longe tudo ficou branco, de repente. Cléia, apaixonada, estava plantada no meio do trânsito. Por um segundo pensou que o caminhão de lixo ia passar por cima de seus pés. O frentista do posto voou por cima da moça, jogando-a no canteiro.

--Sua louca, tá fazendo o que no meio da rua?

-- Desculpa, eu nem sei, eu tava, e aí, não vi. Cadê?

--Tá aqui sua chave, que caiu na hora que você saiu correndo do posto.

--Nossa, obrigada.

--Vê se não esqueceu mais nada, que amanhã eu guardo para você no posto.

--Obrigada, mesmo. Eu tô tão avoada...

--É, tô sabendo Cléia. Você nem me vê.

--O quê?

--Desde o mês passado que eu aceno para você todo dia, de bom dia. Você só sorri quando o Gol branco passa. Eu sei.

--Juro que não vi. Desculpe.

--Tem nada não, eu tô ligado. Nem carro tenho, sou um pangaré mesmo. Falou então, te cuida.

--Ei, toma aqui um panfleto. Atrás coloquei meu celular. Tô te devendo uma, você me salvou.

--Tá devendo nada, devia era prestar mais atenção. Ficar aí sonhando com carro e apartamento de bacana não dá certo, menina.

Cléia começou a chorar. Encostou no poste e foi deixando as costas deslizarem para baixo.

No posto, os colegas do frentista queriam saber qual era o motivo do choro. Nada não, coisa de abobada deslumbrada. Qual é, cara, magoou a menina. É que tem sonho que não se joga dentro do carro dos outros. E quem se joga para o outro nem sonho tem.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Granfino

Olha lá.
-- Quem?
Aquele bacana, ali, tá pensando o que, que vai encostar a Mercedes aqui para tomar uma cana? Deve ser policial à paisana.
-- Ih, mano, encostou. Do meu lado é que não senta, o banquinho tá ocupado.
E tu acha que granfino senta em balcão, oh mané?
-- Disfarça aí.

A Mercedes prata encostou na garagem ao lado do boteco, na tranversal. Desceu do carro um homem de meia-idade, bermuda jeans e camiseta de time de futebol estrangeiro. Cabelo grisalho, liso, com franja de lado, do tipo que cobre o topo da orelha. O bacana fez um assovio em sinal de ei, vem cá, para o vendedor ambulante de palhetas de carro.

--Ah, é só para humilhar mesmo, nego para logo aqui para trocar pára-brisa, qualé.
Fica na tua, bebe aí a cana e a gente volta logo pro serviço, que o patrão já deve ter notado falta.

O granfino dono da Mercedes testou vários modelos de palheta, pagou por um par o preço de dois que o ambulante venderia para qualquer Gol que passasse, e entrou no boteco, pulando a mureta da vaga de garagem.

-- Boa tarde, chefia, uma cerveja, a que tiver mais gelada, por favor.
-- Sim, patrão, tá aqui.
-- Ahhhhh.

Silêncio no boteco. Ninguém mais falava. Só se ouvia o barulhos dos motores dos carros, ônibus e caminhões na movimentada avenida de comércio de madeiras.

--Bom, obrigada, mestre. Tá aqui, pode ficar com o troco. Falou.

Abriu a porta do carro com cuidado, sentou, logo levantou para tirar uma poeirinha da borracha que bate a porta. Ligou o chuveirinho de pára-brisa para testar a palheta nova. Arranhou o vidro. O bacana saiu furioso do carro, deixando tudo aberto, e partiu para cima do ambulante.

--Ei, ei, você. Vem cá, cara, olha aqui. É, volta aqui. Arranhou meu vidro, pô. Devolve meu dinheiro.
--Não, chefia, o senhor testou antes, o material é de qualidade, aí, chinês do Porto de Santos.
--Na-não, coloca a minha palheta de volta e me dá o dinheiro.
--Eu já vendi a do senhor.
--Eu te arrebento, safado, tá aqui uma na orelha, e essa na outra, malandro.

Os dois que estavam no bar saíram em defesa do ambulante, segurando o granfino pelas costas, enquanto o sujeito perdia a compostura. O movimento chamou a atenção da viatura que estava parada no posto da esquina. Os policiais chegaram, encostaram o ambulante e os dois serventes na parede, os algemaram, sem nada perguntar, exceto sobre sobre a quantidade de cachaça ingerida.

--Pode seguir, senhor, nem precisa dar queixa, tudo sob controle.

O bacana pôs a mão no quadril, balançou a cabeça com ar de desaprovação e entrou no carro sem falar nada. Ligou o motor, deu ré e ao tomar a avenida ligou o pára-brisa e a música alta.

terça-feira, 22 de março de 2011

Mesa 5 - no cantinho de um bistrô modernoso

Até chegar ali não foi fácil. O sábado se arrastava sem conversa, e a fome já tinha passado do estômago para o coração. Fome de vida. Cansada de silêncios, ela resolveu ajudar na leitura do cardápio, porque não tinha mesmo qualquer outro assunto.

--Olha, tem carneiro com hortelã, que você gosta. Só que o molho é com pimentão, aí tem que mandar tirar. E você viu ali em baixo que a sobremesa está inclusa? Aposto que você vai ficar com os profiteroles.

--Não enche o saco, deixa que eu sei ler.

A resposta doeu. Bateu no alto da garganta onde tudo entalava. Não deu para controlar o choro. O garçom atônito oferecia mais água. Ela olhava para o lado oposto, ali bem  na dobradiça do bufë de servíço. Aquele buraquinho era o foco mais distante para tentar desviar do tema. Que tema mesmo? Há tantos anos, e nenhum almoço agradável a dois. Com a turma, ok, era ótimo, tinha papo de sobra. Essa angústia silenciosa que teima em suspender a fome. Não tem nada para anotar, moço, desista de atendê-los. Ela tá na cara que vai levantar e sair bufando. O maitre até desconfia que a água vai ser usada para lavar a cara do grandão enfezado. Que nada. Ela fez o pedido. O dela e o dele. Sorriu, abriu o guardanapo no colo, tomou a água e olhou para a rua.

--Tá lindo o dia.