E ali está ela, mais uma vez. Toda maquiada, perfumada, com uma calça jeans bem justa e cadarço colorido nos tênis, distribuindo panfletos que ninguém abre o vidro do carro para apanhar. Desviando dos motoboys na avenida movimentada da chique zona sul de São Paulo, a moça procura o Gol branco, aquele do rapaz trabalhador simpático, que vivia fazendo elogios aos seus olhos cor de mel.
Passaram-se duas horas, três, já vai ficar de tarde e o moço ainda não veio. A bonitinha do panfleto, como ele a chama, murchou. Andava arrastada entre os carros, esquecia até de entregar papel. Mal percebeu o psiu que veio lá de baixo. Quando já estava voltando para o canteiro, o moço do Gol branco passou e deu sinal, chamando-a com o braço, para dobrar a esquina junto com ele.
Ela olhou em volta, para checar se o olheiro da construtora estava por perto, aparentemente não, então ela foi. Buzina para todo lado, que o Gol ficou de rabo na alça da saída do pontilhão, atrapalhando os que vinham atrás.
--Entra, disse o moço. Rápido!
Ela olhou para um lado, para o outro e entrou.
--Oi. Olha moço, eu tô trabalhando, é só uma voltinha tá?
-- Que nada, bonitinha do panfleto, vim te tirar dessa vida no meu cavalo branco. Ehehe, tô brincando, vamos ali tomar um café no posto, é rápido.
Ela gostou da ideia. Mais ainda do cavalo branco. Será que era ele o tal que a tia havia jurado de pés juntos que seria o marido dela. "O moço tá chegando", a velha disse. A moça tremia. Frio na barriga. Comida nenhuma ia descer. O cavaleiro pediu dois cafés, o dela foi num gole de fazer careta, tão quente que estava.
--Nossa, a menina é valente, disse ele. Conta, garota, quando é que você vai comigo no forró?
--Não posso não, eu nem moro por aqui. Fico do outro lado do rio, lá no final.
--Fique tranquila, a gente combina e eu te pego no meio do caminho. Senta aqui do meu lado.
--Eu tô preocupada, moço, de perder o bico, é a renda que ajuda em casa. Tenho de voltar, vou indo -- e virou, quase batendo na porta de vidro da pequena loja de conveniência. Num passo apressado cruzou o posto e virou-se para trás, para mandar um tchau ao moço.
--Ei, menina -- gritou ele, da porta. Você não me deu seu nome!
--É Cléia - gritou ela, já na esquina.
Os frentistas do posto começaram a assobiar. O cavaleiro branco não gostou. Foi tirar satisfação. Deixa disso, e entrou no carro. No caminho foi pensando se não dava para atrasar a entrega mais um pouco, para dar outra volta. Atrasado e meio está. Virou o quarteirão. Passou por Cléia, mandou um beijo assoprado com a mão direita. Ela viu o cavalo galopando em disparada. Lá ao longe tudo ficou branco, de repente. Cléia, apaixonada, estava plantada no meio do trânsito. Por um segundo pensou que o caminhão de lixo ia passar por cima de seus pés. O frentista do posto voou por cima da moça, jogando-a no canteiro.
--Sua louca, tá fazendo o que no meio da rua?
-- Desculpa, eu nem sei, eu tava, e aí, não vi. Cadê?
--Tá aqui sua chave, que caiu na hora que você saiu correndo do posto.
--Nossa, obrigada.
--Vê se não esqueceu mais nada, que amanhã eu guardo para você no posto.
--Obrigada, mesmo. Eu tô tão avoada...
--É, tô sabendo Cléia. Você nem me vê.
--O quê?
--Desde o mês passado que eu aceno para você todo dia, de bom dia. Você só sorri quando o Gol branco passa. Eu sei.
--Juro que não vi. Desculpe.
--Tem nada não, eu tô ligado. Nem carro tenho, sou um pangaré mesmo. Falou então, te cuida.
--Ei, toma aqui um panfleto. Atrás coloquei meu celular. Tô te devendo uma, você me salvou.
--Tá devendo nada, devia era prestar mais atenção. Ficar aí sonhando com carro e apartamento de bacana não dá certo, menina.
Cléia começou a chorar. Encostou no poste e foi deixando as costas deslizarem para baixo.
No posto, os colegas do frentista queriam saber qual era o motivo do choro. Nada não, coisa de abobada deslumbrada. Qual é, cara, magoou a menina. É que tem sonho que não se joga dentro do carro dos outros. E quem se joga para o outro nem sonho tem.
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