Até chegar ali não foi fácil. O sábado se arrastava sem conversa, e a fome já tinha passado do estômago para o coração. Fome de vida. Cansada de silêncios, ela resolveu ajudar na leitura do cardápio, porque não tinha mesmo qualquer outro assunto.
--Olha, tem carneiro com hortelã, que você gosta. Só que o molho é com pimentão, aí tem que mandar tirar. E você viu ali em baixo que a sobremesa está inclusa? Aposto que você vai ficar com os profiteroles.
--Não enche o saco, deixa que eu sei ler.
A resposta doeu. Bateu no alto da garganta onde tudo entalava. Não deu para controlar o choro. O garçom atônito oferecia mais água. Ela olhava para o lado oposto, ali bem na dobradiça do bufë de servíço. Aquele buraquinho era o foco mais distante para tentar desviar do tema. Que tema mesmo? Há tantos anos, e nenhum almoço agradável a dois. Com a turma, ok, era ótimo, tinha papo de sobra. Essa angústia silenciosa que teima em suspender a fome. Não tem nada para anotar, moço, desista de atendê-los. Ela tá na cara que vai levantar e sair bufando. O maitre até desconfia que a água vai ser usada para lavar a cara do grandão enfezado. Que nada. Ela fez o pedido. O dela e o dele. Sorriu, abriu o guardanapo no colo, tomou a água e olhou para a rua.
--Tá lindo o dia.
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