domingo, 8 de maio de 2011

Sr. João

Seis da tarde, sr. João sobe no ônibus com um sorriso. Cumprimenta Seu Edson, o motorista, e Clebson, o cobrador, quebrando o silêncio dos irritados. A senhora da primeira poltrona afasta a grande sacola para mais um passageiro conseguir alcançar a catraca. Mas sr. João não quer passar agora, obrigada. Conta para quem quiser e não quiser ouvir que havia acabado o primeiro expediente e estava rumo ao segundo. Sua vida de porteiro graças a Deus muito digna e de dedicação garantiu aos dois filhos estudo. A menina está até na faculdade. O rapaz é muito trabalhador, sabe, senhora, bom menino, frequenta a igreja tem cabeça boa.

A senhora acena com a cabeça, mas continua segurando o sono, dá uma volta e fecha os olhos novamente no meio do relato sobre o carro, que graças a Deus sr. João conseguiu comprar. Mas ele diz preferir andar de coletivo, porque a patroa pode precisar sair para algum canto da cidade. Ele conhece muito bem essa Avenida Rebouças e mesmo nesse horário é melhor andar de ônibus que de carro, olha lá, ó, estamos muito na frente já daquela van que fechou o ônibus ali na Consolação. São Paulo não está de brincadeira, moça, muito trânsito e confusão. Mas foi aqui que com suor fizemos a vida, oportunidade assim não tem lá na Paraíba. Sr. João ajuda a família, manda todo mês parte do salário para a mãe e seis irmãos. Não recomenda para ninguém vir para São Paulo, deixa que ele cuida disso.

O Kassab deveria mandar os ônibus andarem numa faixa só, comentou o menino sentado no banco detrás. A blusa do colégio particular de jesuítas mostrava que o garoto, por volta de 12 anos, prestava atenção na aula de educação cívica.

Ah, mas está de doer essa lenga-lenga, o ônibus não avança. Sr. João agora quer passar, para tentar descer do ônibus e ir caminhando mesmo, que chega mais rápido. Não pode atrasar, não, meu senhor, que a vida tá dura e tem muita prestação de carnê para pagar. Dá licença. Dá licença. Clebson, tá precisando de troco?

Após uns dez minutos de empurra-empurra, Sr. João, franzino mas ágil, conseguiu alcançar a porta. Tocou a campainha e gritou ao Edson que iria descer naquele ponto. O grandão do fundo do ônibus já estava irritado com tanta falação. Desceu atrás do Sr. João e o foi seguindo. Deu nos nervos aquela história de carro e carnê para pagar. Qual é, vem da Paraíba e fica aí se achando? Isso não vai ficar assim.

Sr. João acena para o colega com quem vai trocar de turno, já está escuro. Entra na guarita sem perceber que alguém vinha atrás. Levou uma cotovelada na nuca, caiu seco no chão. O porteiro chama a polícia pelo botão de emergência da guarita. Tranca a porta correndo, mas o grandão consegue quebrar o trinco da janela basculante. E pergunta: De onde tu é? Ceará, Paraíba, onde? O porteiro não consegue falar de tão nervoso. Gesticula alguma coisa e pega o interfone. Não deu tempo de falar, também foi derrubado. A síndica ouviu os gemidos, avisou o marido e ficou na janela. Foi o tempo de o grandão se vingar da Paraíba e sair pelo portão, como se nada tivesse acontecido. A polícia chegou, ele começou a correr, saltando por sobre os carros. Bateu de cara no poste com o nome da rua Sergipe, onde ficou algemado até chegar o reforço.

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